Em Nome do P-AI

Não há encontro, conferência ou conversa sobre AI, machine learning ou Big Data em que alguém a certa altura não mencione a história da “menina da Target”. Um dos aspectos mais interessantes é que não parece haver muitas indicações que seja verídica: um tipo contou a história numa apresentação, sem indicar com precisão datas ou localidade, e nunca ninguém ofereceu alguma confirmação concreta. É bem provável que se trate de uma anedota contada para “puxar a brasa à sua sardinha”, como dizem os portugueses. O facto de não ser uma história verdadeira, porém, não retira o seu interesse, muito pelo contrário (ou seja, como dizem os italianos, “se non è vero è ben trovato”).

Se muitos de nós difundem um relato, notícia ou imagem sem sentir a necessidade de verificar a sua veracidade deve ser porque tal relato, notícia ou imagem possui um poder peculiar de fascinação. E talvez essa fascinação possa ser explicada como uma boa correspondência às esperanças e desejos, ou às ansiedades e receios, que agitam silenciosamente as nervuras dos nossos pensamentos. Acredito ser assim no caso da “menina da Target”.

Na verdade, o actor principal é o pai, o pai que primeiro se enerva e protesta mas que depois no fim pede desculpa à “máquina”, porque quem esteve mal foi ele. Foi ele, pai ausente, que não soube reconhecer e conter a exuberante sexualidade da filha adolescente, foi ele, pai arrogante, que, mesmo perante a clara indirecta que a máquina lhe dirigiu, não quis sequer duvidar por um instante das suas capacidades e foi ainda ele, pai inepto, que teve que admitir ter sido derrotado pelo algoritmo da Target que conhecia a filha melhor do que ele.

A história, ou melhor, a parábola da menina da Target diz muito sobre o poder dos algoritmos (no sentido, claro, das muitas do conjunto de diferentes instâncias, tanto públicas como privadas, que poderão recorrer a este tipo de instrumentos na sua intervenção) que pode ser pensado precisamente como um poder “paternal”. Um pai decididamente “presente”, “compreensivo” e “cuidador”, que guia e acompanha as nossas acções com vista à sua optimização, que cuida atencioso do nosso bem-estar e corresponde, chegando aliás a antecipa-las, a todas as nossas necessidades. É o governo de um pai poderoso e benévolo, omnipresente e discreto, que nunca deixará de tratar de nós, desde que, naturalmente, não pretendamos abandonar o nosso estatuto de “filhos menores”.

Links:

Um resumo da parábola: K. Hill, How Target Figured Out A Teen Girl Was Pregnant Before Her Father Did (2012, na Forbes)

O artigo original de Duhigg no NYT (2012): How Companies Learn Your Secrets

Um post de 2014 que põe em dúvida a veracidade da história: Did Target Really Predict a Teen’s Pregnancy? The Inside Story

E, last but not least, um texto meu no Academia.edu que, entre outras coisas, fala disso: Governar por Algoritmos. Big Data e Gestão Social

 

 

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Os elevadores sociais no Brasil

quem vai ao brasil descobre rapidamente algumas coisas que talvez antes de ir ao brasil não sabia ou não imaginava e sobretudo quem vai ao brasil e vive lá nem que seja um tempo breve ou relativamente breve. eu vivi no brasil um tempo breve, ou relativamente breve, e descobri que no brasil, sobretudo nos prédios dos bairros mais ricos, aliás. primeiro, no brasil nas cidades grandes há mesmo bairros ricos e bairros pobres, e nota-se. nos bairros ricos os edifícios são mais bonitos e até a calçada é toda limpinha e decorada. muitas vezes eles põem nomes aos edifícios, nos bairros mais ricos, e os nomes são sempre tipo “suiça”, “amalfi”, “shangri-la”, enfim nomes de lugares bonitos (se bem que o último shangri-la, para ser sincero, não existe). nos bairros pobres as casas são assim mais pelo inacabado e a calçada, quando há, está cheia de buracos ou de lama ou dos dois. os bairros ricos geralmente têm muitos prédios altos, e por isso um amigo meu uma vez disse-me que são chamados “paliteiros” (por parecerem-se com palitos, mas isto de facto acontece só quando vistos de longe, de parecerem-se com palitos). mas, como dizia, eu vivi no brasil um tempo que pode ser considerado breve ou quase breve e descobri que no brasil os prédios altos dos bairros mais ricos têm dois elevadores. não é, por si só, grande descoberta que, pensando bem, o meu prédio também, aqui em lisboa, tem dois elevadores. só que os dois elevadores do meu prédio aqui em lisboa são perfeitamente idênticos e estão um ao lado do outro. às vezes um pode estar um pouco mais sujo do que o outro, porque passou ali alguém com um cão depois de um passeio na chuva (por exemplo), ou então um pode ter um papel da administração colado com fita-cola que o outro não tem, geralmente porque alguém tirou, ou talvez esteja rasgado ou com escritas tipo palavrões. mas, tirando isto, os dois elevadores do meu prédio em lisboa são idênticos, e estão um ao lado do outro. estas duas características, o serem idênticos e o estarem um ao lado do outro, faz que entrar num ou no outro é indiferente (tirando os aspectos acima referidos, do cão que se molhou na chuva e todo o resto). não acontece assim no brasil porque no brasil quando há dois elevadores no mesmo prédio um é chamado elevador “social” e o outro é o elevador “de serviço”. o elevador dito social é o elevador que está, regra geral, logo visível na entrada do prédio, e é bonito e bem limpinho. por exemplo no caso do prédio onde eu morei, por um tempo breve mas não assim muito breve, o elevador social tinha um espelho enorme. e o outro elevador, que seria o elevador de serviço, é diferente. para começar, fica muitas vezes mais escondido, nas traseiras da entrada e, assim à primeira, não se vê. depois, é menos bonito, não tinha espelho, por exemplo, o elevador de serviço do prédio onde morei por, digamos, algum tempo, no brasil. também tinha um ar mais gasto e os botões estavam todos descoloridos. era diferente também porque era maior. eu assim num primeiro momento não percebi bem a diferenças mas depois explicaram-me que o elevador social era para tipo quando vem alguém visitar e o elevador de serviço era para transportar coisas como, por exemplo, as compras ou se comprares um frigorífico novo (que no brasil, aliás, para o frigorífico não dizem “frigorífico” mas dizem “geladeira”) as pessoas que vem trazer o frigorífico da loja e que vão precisar do elevador, porque um frigorífico (ou geladeira, no brasil) pesa como um danado não sei se já tiveram oportunidade, então as pessoas que vêm entregar o frigorífico devem usar o elevador “de serviço”. por isso é que o elevador “de serviço” é maior, para poder transportar coisas grandes e pesadas, tipo frigoríficos por exemplo. depois por como funcionam as coisas no brasil vi que as pessoas que entregam coisas, ou as pessoas que fazem trabalhos tipo, digamos, obras, ou limpezas, são quase sempre negras ou pelo menos tem a pele de um tom mais escuro. os meus vizinhos eram, tipo noventaecinco por cento, brancos como eu, e os seus amigos também. então acontecia que, regra geral, os brancos entravam no elevador “social” e os negros, ou de qualquer forma menos brancos, no elevador de serviço. havia, no prédio no brasil onde eu morei por um tempo que agora não vale a pena precisar, um porteiro como havia porteiros em quase todos os prédios, sobretudo os prédios altos e sobretudo no bairros mais ricos. o porteiro uma das suas tarefas era precisamente a de decidir quem entrava num elevador ou no outro. na grande maioria os meus colegas de trabalho eram brancos, menos dois que não eram. os meus amigos eram quase todos colegas de trabalho e, por causa disso, eram quase todos brancos. um deles que era negro de um tom mesmo bastante escuro, contou-me que sempre que entrava num prédio destes altos nos bairros mais ricos, também conhecidos como “palitos”, o porteiro ficava na dúvida se ele deveria usar o elevador social ou o elevador de serviço, porque, sendo negro, era mais provável que viesse para limpar alguma coisa ou entregar coisas do que não visitar um amigo. um dia durante este período de tempo imprecisado que eu morei no brasil, enquanto bebíamos uma cerveja, eu e este amigo meu brasileiro que era negro (de um tom escuro mesmo) concordámos que era pena que uma palavra tão bonita como “elevador social” fosse usada assim, à toa.